O sócio de um escritório de engenharia abre a nota técnica do Ipea sobre a jornada de trabalho e a escala 6x1 e procura a linha do próprio setor. Serviços de arquitetura e engenharia aparecem com alta de 8,15% no custo da hora trabalhada. Duas colunas à direita, a alta do gasto total do setor fica em 3,78%.
A diferença entre os dois números vem do método. O Ipea pondera a hora mais cara pela fatia do trabalho nas despesas de cada setor, e essa fatia cresce nos serviços que dependem de gente. Na indústria e no comércio, diz a nota, o peso sobre o custo total "torna-se menos significativo".
A tabela descreve o setor, em média. A conta do escritório depende dos contratos, das horas e da folha dele, e essa conta é do contador.
O que a nota técnica do Ipea simulou
A Nota Técnica Disoc nº 123, "Mudanças na jornada e na escala de trabalho: elementos empíricos para o debate", saiu em fevereiro de 2026 como publicação expressa, sem revisão editorial, como avisa o próprio Ipea. A base é a RAIS 2023, com os vínculos com carteira ativos em 31 de dezembro de 2023.
A simulação, anterior à emenda, corta a semana de 44 para 40 horas, ou para 36, de uma vez e com o salário nominal mantido. A EC 141, que o Congresso promulgou em outubro de 2026, seguiu outro desenho, com 42 horas a partir de dezembro de 2026 e 40 a partir de dezembro de 2027; a gente leu a emenda artigo por artigo.
Pela nota, um vínculo de 44 horas que cai para 40 sem mexer no salário passa a custar 10% a mais por hora. Para quem fazia 43 horas, a alta é de 7,5%; para 42, de 5%; para 41, de 2,5%. Para contrato de 40 horas ou menos, a conta dá zero. Na primeira etapa da emenda, de 44 para 42 horas, a mesma divisão dá perto de 4,8% por hora (essa conta é nossa).
Somando os vínculos do país, o Ipea estimou nessa simulação alta média próxima de 8% no custo da hora, uma média nacional. O texto reconhece que a metodologia tende a superestimar o aumento do custo do trabalho e pede que os resultados não sejam lidos como conclusivos.
Quem é afetado pelo fim da escala 6x1?
Pela conta do Ipea, o efeito cai sobre os contratos acima de 40 horas. Na RAIS 2023, cerca de 74% dos vínculos com jornada de trabalho declarada tinham contrato de 44 horas semanais, 9% de 40 horas e 11% de até 36.
A distribuição varia de setor para setor. Em 19 setores, a maior parte de serviços, mais da metade dos vínculos tinha 40 horas ou menos, entre eles saúde, educação, serviços financeiros e tecnologia da informação. Em outros 31 setores, mais de 90% trabalhavam acima de 40 horas.
Por que o fim da 6x1 pesa mais nos serviços
A nota combina dois números para cada setor. O primeiro é a alta do custo da hora, que cresce com a fatia de vínculos acima de 40 horas. O segundo é a parte das despesas do setor que vai para o trabalho, tirada das pesquisas anuais do IBGE. Nas palavras do Ipea, a combinação "pondera o choque no custo da hora trabalhada com a capacidade de absorção do setor", e o resultado põe na frente "as áreas de prestação de serviços bastante intensivas em trabalho humano".
A gente separou seis setores de serviço da nota:
| Setor, como a nota nomeia | Alta do custo da hora | Trabalho nas despesas | Alta do gasto total |
|---|---|---|---|
| Atividades jurídicas, de contabilidade e de auditoria | 7,29% | 46,30% | 3,38% |
| Serviços de escritório, de apoio administrativo e outros serviços prestados às empresas | 6,73% | 60,67% | 4,08% |
| Serviços de arquitetura e engenharia | 8,15% | 46,30% | 3,78% |
| Publicidade e pesquisa de mercado | 7,47% | 46,30% | 3,46% |
| Atividades imobiliárias | 8,40% | 37,00% | 3,11% |
| Atividades dos serviços de tecnologia da informação | 3,41% | 40,26% | 1,37% |
Fonte: Ipea, Nota Técnica Disoc nº 123, fevereiro de 2026, tabelas das páginas 15 e 16. São 6 dos 87 setores da nota.
A última coluna sai das duas anteriores. Multiplique a alta da hora pelo peso do trabalho: na engenharia, 8,15% vezes 46,30% dá 3,77%, e a tabela traz 3,78%. A conta fecha nas seis linhas, com diferença de arredondamento (a multiplicação é nossa; os números são do Ipea).
Três leituras saem da tabela:
- O peso do trabalho muda a ordem. No apoio administrativo, a hora sobe menos que na engenharia, 6,73% contra 8,15%. O gasto total sobe mais, 4,08% contra 3,78%, porque o trabalho responde por 60,67% das despesas do setor.
- Cada serviço pesa diferente. A tecnologia da informação fica em 3,41% na hora e 1,37% no gasto total. É um dos setores em que mais da metade dos vínculos tinha 40 horas ou menos, segundo a mesma nota.
- Média de setor tem limite. O 46,30% se repete em três linhas. A nota 10 explica que, em alguns casos, o dado das pesquisas do IBGE existia em outro nível de agregação, e o Ipea fez inferências para cada divisão. Para saúde humana, a nota traz a alta da hora, 4,33%, sem a coluna do gasto total.
Quais são as consequências do fim da escala 6x1?
A nota lista os caminhos de uma empresa diante da hora mais cara, sem escolher entre eles. Um é reduzir as horas totais trabalhadas, com investimento para a hora render mais ou com produção menor. O outro é manter a produção contratando gente, com margem de lucro menor ou preço maior para o cliente. Cada caminho envolve regra trabalhista e tributária, e a conta de cada empresa passa pelo contador ou pelo advogado.
Qual o impacto na economia do fim da escala 6x1?
A nota deixa a pergunta em aberto. Ela oferece uma simulação de custo por setor e não fecha a lista de vantagens e desvantagens do fim da escala 6x1. O que o Ipea diz sobre a falta de consenso, e o que um estudo da FGV viu num piloto de semana menor, está em um sócio diz que a semana menor rende mais e o outro, que trava tudo.
O que cada empresa consegue medir
A tabela do Ipea mostra quanto da despesa de um setor é trabalho. Cada empresa consegue medir a versão interna dessa pergunta: quanto das horas da equipe vai para trabalho de molde conhecido, e quanto vai para trabalho que pede o julgamento de alguém.
Volte ao escritório de engenharia do começo. O engenheiro que esteve na reunião com o cliente escreve contexto e escopo do zero, entre um projeto e outro, e a proposta leva dias para sair. A solução de proposta, no site da Kaffra, descreve esse quadro e mais dois sinais: cada pessoa escreve de um jeito e o padrão se perde, e a fala do cliente na reunião some do texto.
Na nossa leitura, o engenheiro gasta horas na parte da proposta que tem estrutura conhecida: contexto, escopo padrão, valor pela tabela. Com os contratos de 44 horas descendo para 42 e depois para 40, essa parte disputa as mesmas horas do projeto.
A proposta no catálogo
No exemplo de proposta montada a partir da reunião, o trabalho parte do modelo de proposta da própria empresa. Um programa de IA preenche o rascunho a partir da transcrição da reunião: contexto, dor, escopo, prazo e valor conforme a tabela. O engenheiro que esteve na reunião revisa numa tela só, ajusta o que precisa e envia. A exceção que pede o engenheiro, pela nossa sugestão, é o escopo que foge do padrão ou o valor fora da tabela.
O catálogo mede duas coisas nesse fluxo: o tempo entre a reunião e o envio da proposta, e quantas propostas saem por semana. A primeira mede a espera do cliente pela proposta; a segunda, quantas propostas chegam ao cliente para virar receita.
Por onde o escritório começa
- A folha fica com o contador. Separe os contratos por horas semanais (44, 40, menos de 40) e leve a lista a ele. A média do Ipea serve de contexto; o número do escritório sai dos contratos dele.
- Duas semanas de horas por tipo de trabalho. Na equipe com contrato acima de 40 horas, cada pessoa anota as horas em trabalho de molde conhecido, como proposta, relatório padrão e redigitação, e as horas em trabalho de julgamento técnico. A divisão entre as duas é a versão do escritório para a pergunta da tabela.
- Um fluxo e o número dele. Escolha o fluxo que mais pesou na anotação e meça com as medidas do catálogo. Com o aceite do sócio por escrito, esse número vira a linha de base. Se a anotação apontar mais de um candidato, a tarefa que aparece todo dia, para várias pessoas, vem antes, como em a lista do que vem depois do texto.
- Quem escreve e quem aprova. Chame quem escreve as propostas e quem aprova o valor, e escrevam o critério de pronto, a régua que diz se a primeira entrega funcionou. Um exemplo: a proposta sai com as falas do cliente na reunião, e o sócio revê só o valor fora da tabela.
A gente lê as duas colunas com o sócio numa reunião gratuita e marca com ele qual fluxo de molde conhecido entra primeiro na medida.
